Apresentação

Revista Linha Mestra – Ano X. No. 28 (jan.abr.2016). ISSN: 1980-9026

TRANSVERSALIZANDO: MÚLTIPLAS LINGUAGENS E PROLIFERAÇÃO DE SABERES
Maria dos Remédios de Brito*
Belém, 02 de Janeiro de 2016

São muitos os caminhos
E alheios os vizinhos!
São largas as estradas
E as distâncias erradas,
(…)
(Fernando Pessoa)

Em agosto de 2015, recebi o convite generoso dos organizadores da Revista Linha Mestra para pensar um número que tivesse abertura pelos fios das Múltiplas Linguagens. Não pensei duas vezes, aceitei! Fiquei emocionada com o convite e ao mesmo tempo preocupada em como pensar o dossiê diante de uma temática tão grande que comporta tantas leituras…O processo de ruminação para a organização fez-me compreender que por sua amplitude era possível obervar suas vantagens, pois a mesma abre a escritura e a linguagem textual aos encontros, às travessias, dando tessituras para uma proliferação de saberes percorridos pela diferença.
As conexões podem destacar possibilidades de aberturas para outros olhares sobre o que se vem produzindo, em outras regiões do Brasil… O que se pretende é não formar imagens fechadas, construir guetos, imprimir identidades, mas conectar vozes, sentidos, pensamentos, acionar movimentos, vibrações, sensibilidades, juntando a crítica, a cultura, a poesia, a educação, o cinema, a fotografia, por entre lugares, por entre becos, por entre margens, por entre rios e águas, que possam inventar modos de vida alinhados a outras sensibilizações. Abrir o “ovo do mundo” para fomentar partilhas…
Este número da Revista Linha Mestra vem afirmar o grande objetivo desse periódico que é multiplicar, proliferar e transversalizar com a mestiçagem da cultura, dos saberes e das linguagens em prol de contexturas coloridas.
Os acoplamentos vão criando pontos, redes de saberes, capazes de abrir hiatos e irrupções apropriados para emitir fissuras que possam, quem sabe, espantar os espectros da racionalização exacerbada que tende a minar e ruir mundos possíveis.
Transveslizar! Esse é o objetivo desse dossiê que traz em sua editoração especial alguns pesquisadores do Norte do Brasil, especialmente, do Estado do Pará, além de outros colegas espalhados pelo país. Transitar…acolher… proliferar…contagiar o mundo de saberes abertos à vida.
Que os experimentos de escrituras, aqui presentes, encontrem leitores que possam efetuar a sua própria experiência de pensamento, de modo que libere pontos notáveis, gestações e partos que tenham como berço acolhedor a leveza, a inventividade.
Que o corpo do leitor seja minado pelo desejo. Abaixo, segue um resumo do que será encontrado nesta edição.
Luís Heleno Montoril del Castilo detaca em seu texto, O Chão dos Lobos uma leitura ousada sobre a obra de Dalcídio Jurandi. “A cidade dos lobos é um ânus. “Não-se-assuste”, o cortiço, é uma das suas pregas onde delira Alfredo, de uma febre, dentro de uma rede-crisálida. Esse delírio é tal somente a intolerância ao poder de um Estado-lobo-alfa”.
Joyce Ribeiro, Lidia Sarges e Madna Pinheiro, em Artefatos em miriti e a representação de corpos masculinos e femininos, fazem “uma reflexão inicial sobre a representação do corpo masculino e do feminino em um artefato de miriti, a saber, a peça casal de namorados e/ou casal de dançarinos. (…) Um dos elementos da tradição bicentenária dos artefatos de miriti é a produção generificada, um processo organizado a partir da cultura de gênero, e que tem como efeito a modelagem e a montagem da peça casal de namorados-casal de dançarinos, cuja representação do corpo masculino e feminino segue o roteiro de gênero e sexualidade previsto”.
Edilena Maria Corrêa no texto Cartografando saberes: por entre traços rizomáticos no currículo de ciências na educação de jovens e adultos “traz uma discussão acerca do ensino de ciências que se baseia em teorias e práticas curriculares que negam ou desqualificam saberes dos grupos marginalizados, negando as possibilidades de uma educação em ciências que inclua os conhecimentos dos diversos grupos sociais.” O trabalho é realizado em Cametá/Pará.
Helane Súzia da Sílva dos Santos e Maria dos Remédios de Brito, no texto Bragança e a marujada: pedaços de imanência, discorrem sobre a festa da Marujada na cidade de Bragança, localizada no Nordeste do Pará, como uma manifestação cultural que resiste ao tempo abstruso do nosso presente e busca conservar a tradição do seu povo, como reivindicação de um espírito cultural”. O texto vem entrelaçando imagens e escrituras.
Manoel Neto em seu ensaio fotográfico-escrita Tecendo um poema por entre blocos de imagens…blocos de vida…fotografia, trabalha a fotografia da região paraense como imagem poética. Objetiva construir blocos de sensações que destaquem a sensibilidade do olhar diante de um mundo que perde a cada dia a possibilidade de poetizar com as coisas simples.
Michelle Bastos da Cunha e Rafhaella Marques de Olivera, em ensaio poético Minha buceta é o poder…” afirmam a necessidade de“…uma política de sonho, urgente como o azul do céu”.
Flávia Cristina Silveira Lemos e Leandro Passarinho dos Reis Júnior, em seu texto Deleuze, Foucault e o trabalho com documentos afirmam que “fabricar arquivos seria produzir e fazer circular saberes como efeitos de um conjunto de forças que se enfrentam nas malhas das relações de poder”. Os autores fazem uma analise sobre “as relações entre saber-poder através da arqueologia e da genealogia”.
Thaís Cinegatto em seu texto, Os livros da praça: diferentes leituras na alfândega-Porto Alegre/RS, tem o intuito de trazer o universo polifônico circunscrito a este espaço urbano, a Praça da Alfândega, “palco de disputas de diferentes atores sociais, com seus estilos de vidas diversos e que, por conseguinte, coloca distintos sujeitos em dialogo, sejam eles os habitués locais, os moradores, os transeuntes, os comerciantes, a mídia eo Estado.
Tatiana do Socorro Corrêa Pacheco em seu texto, Os discursos de crianças sobre as questões de gênero no trabalho docente e no magistério, “apresenta alguns resultados da pesquisa realizada no Mestrado em Educação, que investigou os discursos de crianças sobre a profissão e os gêneros na docência. Com o intuito de analisar por meio dos discursos das crianças os desdobramentos das questões de gênero no trabalho docente e no magistério. A perspectiva sóciohistórica, apreendeu às crianças, como sujeitos que se constituem sócioculturalmente pelas suas experiências, pelos lugares sociais que ocupam como meninos/as”.
Hugo Souza Garcia Ramos e Alexsandro Rodrigues, no texto sobre A conexão entre cinema e educação: por uma pedagogia das afecções buscam “problematizar e delinear alguns atravessamentos do cinema na educação – ver no que implica, suas prováveis consequências e reverberações. Buscando refletir sobre a dimensão pedagógica e educativa do cinema.”
Marcelo Valente de Souza, Paulo César Lopes e Thamiris Cristiane dos Santos Silva, no texto Corpo e seus embaralhamentos… fluxos e outras sensações dizem: “O corpo não é uma unidade homogênea, um sujeito, ou pessoalidade que engendra uma subjetividade centrada, enclausurada em um eu como unidade, de fato, as relações que emergem por meio desse corpo múltiplo, plural é polifônica. Nessa perspectiva, há o total afastamento de uma tradição racionalista, intelectiva e espiritualista, moralista, suprassensível para se pensar um corpo que passa pelo domínio dos afetos, do sensível, das paixões.”

* Professora da Universidade Federal do Pará